domingo, 3 de maio de 2009

CONFIDÊNCIAS

Mãe! a oleografia está a entornar o amarelo do Deserto por cima da minha vida. O amarelo do Deserto é mais comprido do que um dia todo!
Mãe! eu quero ser o árabe! Eu queria raptar a menina loira! Eu queria saber raptar.
Dá-me um cavalo, Mãe! Até à palmeira verde esmeralda! E o anel?!

A minha cabeça amolece ao sol sobre a areia movediça! do Deserto! A minha cabeça está mole como a minha almofada!

Há uns sinais dentro da minha cabeça, como os sinais do Egipcío, como os sinais do Fenício. Os sinais destes já têm antecedentes e eu ainda vou para a vida.

Não há muros para que haja estrada! Não há muros para pôr cartazes! Não está a mão de tinta preta a apontar - por aqui!

Só há sombra do sol nas laranjeiras da outra margem, e todas as noites o sono chega roubado!

Mãe! As estrelas estão a mentir. Luzem quando mentem. Mentem quando luzem. Estão a luzir, ou mentem?
Já ia a cuspir para o céu!
Mãe! a minha estrela é doida! Coube-me nas sortes a Estrela-doida!

Mãe! dá-me um cavalo! Eu já sou o galope! Há uma palmeira, Mãe! O que quer dizer um anel? Tem uma esmeralda.

Mâe! eu quero ser as três oleografias!

*
Mãe!
Em cima das estátuas está o verbo ganhar, Mãe! será para mim?
Quando passo pelas estátuas fico parado. A olhar para cima das estátuas. Fico parado a subir. Não sei quem me agarra para me levantar no ar. Agarram-me por debaixo dos braços para me levantar ao ar. Para eu ver o verbo ganhar em cima das estátuas.
*
Mãe! eu não sei nada! Eu não me lembro de nada!
Ah! lembro-me de ter ajudado a levar pedras para as pirâmides do Egipto!
Também me lembro de me ter chamado José, antigamente, com meus irmãos e uma mulher!
Mãe!
Estou a lembrar-me! Tu já foste a menina loira! Eu já fui menino verdadeiro a quem tu davas de mamar! Eu já estive contigo na terceira oleografia!
Lembro-me exactamente! Quando tu me beijavas, o Sol não doía tanto na minha pele!
Mãe!
Estou a lembra-me!
E as tardes quando íamos todos juntos soltar palavras no cais e ver chegar mais laranjas!
Outras vezes juntávamo-nos na praia para nadar melhor do que os outros e deixar o sol queimar quem mais merecesse. Já as laranjas estavam contentes com o que chegasse primeiro! O melhor jovem ganhava a melhor rapariga. Os outros sabiam aquela que tinham ganhado.
Eu tinha ganho a minha.
De uma vez, quando deixávamos o cais, entornou-se o cesto das tangerinas. Foi a alegria! E uma das raparigas pôs-se a cantar o sucedido às tangerinas a rolar para o mar:
Tam
tam-tam
tanque
estanque
tangerina bola
tangerina bóia
tangerina ina
tangerininha
pacote roto
batuque nu
quintal da nora
e o dique
e o Duque
e o aqueduto
do Cuco
Rei Carmim
e tamarindos
e amarelos
de Mahomet
ali
e lá
e acolá
..
Almada Negreiros in 4 poesias - Obras Completas
Editoral Estampa

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