segunda-feira, 29 de setembro de 2008

ABELHA BRANCA ZUMBES...

Abelha branca zumbes, ébria de mel, na minha alma
e enrolas-te em lentas espirais de fumo.

Eu sou o desesperado, a palavra sem ecos,
aquele que perdeu tudo, e teve um dia tudo.

Última amarra, range em ti a minha ansiedade última.
na minha terra deserta és a última rosa.


Ah silenciosa!

Fecha os teus olhos profundos. Ali esvoaça a noite.

Ah desnuda o teu corpo de estátua temerosa.

Tens uns olhos profundos onde a noite adeja.
Frescos braços de flor e regaço de rosa.

Parecem-se os teus seios com caracóis brancos.
Veio dormir no teu ventre uma borboleta sombra.

Ah silenciosa!

É esta a solidão de que tu estás ausente.
Chove. O vento do mar caça errantes gaivotas.

A água anda descalça pelas ruas molhadas.
Daquela árvore se queixam, como doentes, as folhas.
Abelha branca, ausente, ainda zumbes na minha alma.

Tu revives no tempo, fina e silenciosa.

Ah silenciosa!

Pablo Neruda - Vinte Poemas de Amor e Uma Canção Desesperada

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