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sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Um Céu e Nada Mais

Um céu e nada mais — que só um temos,
como neste sistema: só um sol.
Mas luzes a fingir, dependuradas
em abóbada azul — como de tecto.
E o seu número tal, que deslumbrados
eram os teus olhos, se tas mostrasse,
amor, tão de ribalta azul, como de
circo, e dança então comigo no
trapézio, poema em alto risco,
e um levíssimo toque de mistério.
Pega nas lantejoulas a fingir
de sóis mal descobertos e lança
agora a âncora maior sobre o meu
coração. Que não te assuste o som
desse trovão que ainda agora ouviste,
era de deus a sua voz, ou mito,
era de um anjo por demais caído.
Mas, de verdade: natural fenómeno
a invadir-te as veias e o cérebro,
tão frágil como álcool, tão de
potente e liso como álcool
implodindo do céu e das estrelas,
imensas a fingir e penduradas
sobre abóbada azul. Se te mostrasse,
amor, a cor do pesadelo que por
aqui passou agora mesmo, um céu
e nada mais — que nada temos,
que não seja esta angústia de
mortais (e a maldição da rima,
já agora, a invadir poema em alto
risco), e a dança no trapézio
proibido, sem rede, deus, ou lei,
nem música de dança, nem sequer
inocência de criança, amor,
nem inocência. Um céu e nada mais.

Ana Luísa Amaral, in “Às Vezes o Paraíso”

domingo, 3 de janeiro de 2010

Estrada

"Meu amor não quero mais palavras rasgadas.
Nem o tempo cheio dos pedaços de nada.
Não me dês sentidos para chegar ao fim.
Meu amor... só quero ser feliz.
Meu amor não quero mais razões p'ra apagar.
O que nasce e renasce e nos faz acordar.
A loucura faz medo se for medo o teu chão.
Mas é ar e é terra dentro do coração.
É ar e é terra dentro do coração.
Meu amor não quero mais silêncio escondido.
Nem a dor do que cai em cada gesto ferido.
Quero janelas abertas e o sol a entrar.
Quero o meu mundo inteiro dentro do teu olhar.
Eu quero o meu mundo inteiro dentro do teu olhar.
E hoje vê a estrada é feita para seguir.
E hoje sente a vida é feita de sentir.
E hoje vira do avesso o mundo e vê melhor.
Deste lado é mais puro.
É teu, é tão maior.
Deste lado é mais puro.
É meu, é tão maior.
(…)"


Mafalda Veiga,
in Estrada