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quinta-feira, 27 de julho de 2017

Na praia de Quicombo olhando o mar...

Na praia de Quicombo olhando o mar[1]...


Voltas que voltam e arremedam o ser
nos interstícios dos volteios que emanaram
da certeza do querer que se foi
envolto em indizíveis coincidências...

Quanto sofrer seria evitado
se na praia de Quicombo,
tivéssemos vislumbrado
para além das lágrimas do rosto humedecido,
da linda Ébo a olhar,
à espera do avô querido...

Mas não vismos mais do que o imediato,
não conseguimos transpôr o umbral
e padecemos que nem cães sem dono
a humilhação de não saber amar
os que entretanto se apossaram de nós,
feitos reféns em silêncios doentios
de bafios e tantos pós
que já não se vê para além do sal,
para laém do mar...
__________

[1] ver poema aqui

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Os Teus Olhos


Direi verde

do verde dos teus olhos

de um rugoso mais verde

e mais sedento


Daquele não só íntimo

ou só verde

daquele mais macio mais ave

ou vento


Direi vácuo

volume

direi vidro


Direi dos olhos verdes

os teus olhos

e do verde dos teus olhos direi vício


Voragem mais veloz

mais verde

ou vinco

voragem mais crispada

ou precipício



Maria Teresa Horta, in 'Candelabro'

terça-feira, 6 de abril de 2010

Quase de nada místico


"Não, não deve ser nada este pulsar
de dentro: só um lento desejo
de dançar. E nem deve ter grande
significado este vapor dourado,

e invisível a olhares alheios:
só um pólen a meio, como de abelha
à espera de voar. E não é com certeza
relevante este brilhante aqui:

poeira de diamante que encontrei
pelo verso e por acaso, poema
muito breve e muito raso,
que (aproveitando) trago para ti."



de Às Vezes o Paraíso

Ana Luísa Amaral
Anos 90 e agora
Uma Antologia da Nova Poesia Portuguesa
edições quasi

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

O Coração

"Demos-lhe sementes; não muitas,
mas quanto bastasse para não se cansar;
água lhe demos, apenas um dedal,
para que os céus lhe batessem no olhar
e à gaiola um pequeno espelho prendemos
para de frente a nuvem poder
contemplar.
Quieta se sentava, com as
asas palpitantes


Assim ela cantava"


Solveig Von SCHOULTZ,
poeta Finlandês(1907-1986);
Trad.: José Agostonho Baptista

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Adeus, até à vista

"Disse-te adeus, até à vista,
Só tu não reparaste nos meus olhos....
Disse-te adeus, mas trouxe-te comigo
E não foram só os teus olhos
Vieste toda
Disse-te adeus com lágrimas que não viste
Mas vieste dentro de mim
Amarrada em meu coração
Disse-te adeus com a mão
Mas parti contigo
No meu sonho
Na nossa ilusão
E aquele beijo que me atiraste
Tenho-o aqui guardado
Como um tesouro"


Raferial

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

"Quase não sei esperar o inesperado,
a rede que se parte e a outra rede
que se reparte: o não saber esperar
com a paciência antiga do silêncio
sentado mansamente ao nosso lado.

Quase não sei sonhar o amargo espanto
de estar aqui à porta de uma lua
que dá para um jardim que deu outrora
para um caminho que não finda nunca
tão pura e simplesmente ao fim da rua."



Maria Alberta Menéres in
Cem poemas portugueses no feminino.

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Sofro de não te Ver

"Sofro
de não te ver,
de perder
os teus gestos
leves, lestos,
a tua fala
que o sorriso embala,
a tua alma
límpida, tão calma...

Sofro
de te perder,
durante dias que parecem meses,
durante meses que parecem anos...

Quem vem regar o meu jardim de enganos,
tratar das árvores de tenrinhos ramos?"


Saúl Dias, in "Sangue (Inéditos)"

terça-feira, 7 de julho de 2009

Lo que necesito de ti

"No sabes como necesito tu voz;
necesito tus miradas
aquellas palabras que siempre me llenaban,
necesito tu paz interior;
necesito la luz de tus labios
!!! Ya no puedo... seguir así !!!
...Ya... No puedo

Mi mente no quiere pensar
no puede pensar nada más que en ti.
Necesito la flor de tus manos
aquella paciencia de todos tus actos
con aquella justicia que me inspiras
para lo que siempre fue mi espina
mi fuente de vida se ha secado
con la fuerza del olvido...
me estoy quemando;
aquello que necesito ya lo he encontrado
pero aun !!!Te sigo extrañando!!!"


(Mario Benedetti)

Te quiero

"Mi corazón no ha dormido
a latido sin parar
es así como te quiero
todo el tiempo sin cesar

Tu sonrisa invade mi alma
tu imagen conmigo está,
demuéstrame que me quieres,
porque es muy dificil vivir
amando con quien no siente amor

El amor es como el viento
no se ve pero se siente
quisiera estar en tu mente
pues sin ti siento la muerte

Al estar siempre a tu lado
tu calor hechiza mi alma
tus brazos me hacen soñar
y pienso que tu me amas.

Quiero pedirte una cosa
que alimentes este amor
para yo seguir viviendo
teniendo esta ilusión"


(Maria Luz Novoa O )

domingo, 31 de maio de 2009

E por vezes

"E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos E por vezes

encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes

ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos

E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se evolam tantos anos"

David Mourão-Ferreira

domingo, 29 de março de 2009

Domingo e nós

«"O que é que você vai fazer domingo à tarde?"
Por que é que você não vai sair comigo?
Vem passar a tarde comigo
vamos passear de mão dada,
os olhos enroscados nos olhos
e os lábios carentes de beijos
vão afogar-se em mil desejos
e a tarde será noite
e a noite será dia
e o dia será a vida
e sempre assim
mergulhados um no outro
seremos felizes...
beijos e beijos...
"beija-me, beija-me mil vezes..."
E sabes que a esta hora
e na hora anterior
e na posterior
eu penso em ti
e sempre.
"beija-me mil vezes, mil vezes mais..."»


Rouxinol (29.03.2009 - 18:02)

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Et Maintenant

"Et maintenant que vais-je faire
De tout ce temps que sera ma vie
De tous ces gens qui m'indiffèrent
Maintenant que tu es partie

Toutes ces nuits, pourquoi pour qui
Et ce matin qui revient pour rien
Ce cœur qui bat, pour qui, pourquoi
Qui bat trop fort, trop fort

Et maintenant que vais-je faire
Vers quel néant glissera ma vie
Tu m'as laissé la terre entière
Mais la terre sans toi c'est petit

Vous, mes amis, soyez gentils
Vous savez bien que l'on n'y peut rien
Même Paris Paris Paris crève d'ennui
Toutes ses rues me tuent

Et maintenant que vais-je faire
Je vais en rire pour ne plus pleurer
Je vais brûler des nuits entières
Au matin je te haïrai

Et puis un soir dans mon miroir
Je verrai bien la fin du chemin
Pas une fleur et pas de pleurs
Au moment de l'adieu

Je n'ai vraiment plus rien à faire
Je n'ai vraiment plus rien
Je n'ai vraiment plus rien à faire
Je n'ai vraiment plus rien
Rien
Rien"


cantada por Grégory Lemarchal

domingo, 15 de fevereiro de 2009

Arma secreta

"Tenho uma arma secreta
ao serviço das nações.
Não tem carga nem espoleta
mas dispara em linha recta
mais longe que os foguetões.

Não é Júpiter, nem Thor,
nem Snark ou outros que tais.
É coisa muito melhor
que todo o vasto teor
dos Cabos Canaverais.

A potência destinada
às rotações da turbina
não vem da nafta queimada,
nem é de água oxigenada
nem de ergóis de furalina.

Erecta, na noite erguida,
em alerta permanente,
espera o sinal da partida.
Podia chamar-se VIDA.
Chama-se AMOR, simplesmente."


António Gedeão, Poesias Completas (1956-1967),
Lisboa, Portugália Editora, 1975, 5.ª ed.


Retirado de: http://pracadapoesia.blogspot.com

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Ah, um Soneto...

"Meu coração é um almirante louco
que abandonou a profissão do mar
e que a vai relembrando pouco a pouco
em casa a passear, a passear...

No movimento (eu mesmo me desloco
nesta cadeira, só de o imaginar)
o mar abandonado fica em foco
nos músculos cansados de parar.

Há saudades nas pernas e nos braços.
Há saudades no cérebro por fora.
Há grandes raivas feitas de cansaços.

Mas — esta é boa! — era do coração
que eu falava... e onde diabo estou eu agora
com almirante em vez de sensação? ..."


Álvaro de Campos, in "Poemas
"
Heterónimo de Fernando Pessoa

sábado, 31 de janeiro de 2009

Saudade

"Saudade é solidão acompanhada,
é quando o amor ainda não foi embora,
mas o amado já…

Saudade é amar um passado que ainda não passou,
é recusar um presente que nos machuca,
é não ver o futuro que nos convida…

Saudade é sentir que existe o que não existe mais…

Saudade é o inferno dos que perderam,
é a dor dos que ficaram para trás,
é o gosto de morte na boca dos que continuam…

Só uma pessoa no mundo deseja sentir saudade:
aquela que nunca amou.

E esse é o maior dos sofrimentos:
não ter por quem sentir saudades,
passar pela vida e não viver.

O maior dos sofrimentos é nunca ter sofrido."


Pablo Neruda

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Tempo oco

"Talvez amanhã a musa baloice nos diários
de bordo
e as águas embarquem na paisagem
das sílabas à vista.
Hoje foi um dia perverso: um abismo
de contratos falseados
como se a lei caísse na hora cega
de todos os compêndios.
Apetece morrer. Apetece rasgar
este evangelho segundo o tempo oco
e explodir no epicentro dos teus lábios
quentes... quentes... quentes...
incendiário timoneiro do sangue louco."


Alice Fergo, in Versos de Água,
Universitária Poesia

domingo, 30 de novembro de 2008

A Grande Dor Das Cousas Que Passaram

"A grande dor das cousas que passaram
transmutou-se em finíssimo prazer
quando, entre fotos mil que se esgarçavam,
tive a fortuna e graça de te ver.
Os beijos e amavios que se amavam,
descuidados de teu e meu querer,
outra vez reflorindo, esvoaçaram
em orvalhada luz de amanhecer.
Ó bendito passado que era atroz,
e gozoso hoje terno se apresenta
e faz vibrar de novo minha voz
para exaltar o redivivo amor
que de memória-imagem se alimenta
e em doçura converte o próprio horror!"


Carlos Drummond de Andrade
Obras completas