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quinta-feira, 27 de julho de 2017

Na praia de Quicombo olhando o mar...

Na praia de Quicombo olhando o mar[1]...


Voltas que voltam e arremedam o ser
nos interstícios dos volteios que emanaram
da certeza do querer que se foi
envolto em indizíveis coincidências...

Quanto sofrer seria evitado
se na praia de Quicombo,
tivéssemos vislumbrado
para além das lágrimas do rosto humedecido,
da linda Ébo a olhar,
à espera do avô querido...

Mas não vismos mais do que o imediato,
não conseguimos transpôr o umbral
e padecemos que nem cães sem dono
a humilhação de não saber amar
os que entretanto se apossaram de nós,
feitos reféns em silêncios doentios
de bafios e tantos pós
que já não se vê para além do sal,
para laém do mar...
__________

[1] ver poema aqui

domingo, 24 de janeiro de 2010

Chamamento

"Da margem do sonho
e do outro lado do mar
alguém me estremece
sem me alcançar.

Um bafo de desejo
chega, vago, até mim.
Perfume delido
de impossível jasmim.

É ele que me sonha?
Sou eu a sonhar?
Sabê-lo seria
desfazer, no vento,
tranças de luar.
Nuvens,
barcos,
espumas
desmancham-se na noite.

E a vida lateja, longe,
num outro lugar."


Luísa Dacosta in
Cem Poemas Portugueses no Feminino,
Terramar

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Não Sei

"não sei

se o nevoeiro não abrir
como posso eu encontrar caminhos
por entre esses silvados

as valas não as sinto
nem os chocalhos dão sinais

não sei se o nevoeiro

que as árvores soltam-se do cinzento
só por momentos

o silêncio tapa-me a visão
não ouço o horizonte

posso ficar assim
parado sem medidas
flutuando entre o orvalho e a erva
silencioso e solto"




Henrique Ruivo
in branco azul ocre

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

"Quase não sei esperar o inesperado,
a rede que se parte e a outra rede
que se reparte: o não saber esperar
com a paciência antiga do silêncio
sentado mansamente ao nosso lado.

Quase não sei sonhar o amargo espanto
de estar aqui à porta de uma lua
que dá para um jardim que deu outrora
para um caminho que não finda nunca
tão pura e simplesmente ao fim da rua."



Maria Alberta Menéres in
Cem poemas portugueses no feminino.

terça-feira, 7 de julho de 2009

Te quiero

"Mi corazón no ha dormido
a latido sin parar
es así como te quiero
todo el tiempo sin cesar

Tu sonrisa invade mi alma
tu imagen conmigo está,
demuéstrame que me quieres,
porque es muy dificil vivir
amando con quien no siente amor

El amor es como el viento
no se ve pero se siente
quisiera estar en tu mente
pues sin ti siento la muerte

Al estar siempre a tu lado
tu calor hechiza mi alma
tus brazos me hacen soñar
y pienso que tu me amas.

Quiero pedirte una cosa
que alimentes este amor
para yo seguir viviendo
teniendo esta ilusión"


(Maria Luz Novoa O )

domingo, 31 de maio de 2009

E por vezes

"E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos E por vezes

encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes

ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos

E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se evolam tantos anos"

David Mourão-Ferreira

quarta-feira, 22 de abril de 2009

SOL DA MEIA-NOITE

"Sinto frio e está sol
sinto saudades
lembranças do futuro.
Criei o meu próprio veneno
e morro-me
sinto saudades
e está frio
e não há vento que me leve
até ti
Está frio.
Vejo
e o meu pensamento
perde-se em sonhos de sonhos
Compreendo o nada de mim
Não.
Não vou virar a página do livro
que nunca li
do livro que nunca abri."

(Raferial)

domingo, 29 de março de 2009

Domingo e nós

«"O que é que você vai fazer domingo à tarde?"
Por que é que você não vai sair comigo?
Vem passar a tarde comigo
vamos passear de mão dada,
os olhos enroscados nos olhos
e os lábios carentes de beijos
vão afogar-se em mil desejos
e a tarde será noite
e a noite será dia
e o dia será a vida
e sempre assim
mergulhados um no outro
seremos felizes...
beijos e beijos...
"beija-me, beija-me mil vezes..."
E sabes que a esta hora
e na hora anterior
e na posterior
eu penso em ti
e sempre.
"beija-me mil vezes, mil vezes mais..."»


Rouxinol (29.03.2009 - 18:02)

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Et Maintenant

"Et maintenant que vais-je faire
De tout ce temps que sera ma vie
De tous ces gens qui m'indiffèrent
Maintenant que tu es partie

Toutes ces nuits, pourquoi pour qui
Et ce matin qui revient pour rien
Ce cœur qui bat, pour qui, pourquoi
Qui bat trop fort, trop fort

Et maintenant que vais-je faire
Vers quel néant glissera ma vie
Tu m'as laissé la terre entière
Mais la terre sans toi c'est petit

Vous, mes amis, soyez gentils
Vous savez bien que l'on n'y peut rien
Même Paris Paris Paris crève d'ennui
Toutes ses rues me tuent

Et maintenant que vais-je faire
Je vais en rire pour ne plus pleurer
Je vais brûler des nuits entières
Au matin je te haïrai

Et puis un soir dans mon miroir
Je verrai bien la fin du chemin
Pas une fleur et pas de pleurs
Au moment de l'adieu

Je n'ai vraiment plus rien à faire
Je n'ai vraiment plus rien
Je n'ai vraiment plus rien à faire
Je n'ai vraiment plus rien
Rien
Rien"


cantada por Grégory Lemarchal

sábado, 31 de janeiro de 2009

Saudade

"Saudade é solidão acompanhada,
é quando o amor ainda não foi embora,
mas o amado já…

Saudade é amar um passado que ainda não passou,
é recusar um presente que nos machuca,
é não ver o futuro que nos convida…

Saudade é sentir que existe o que não existe mais…

Saudade é o inferno dos que perderam,
é a dor dos que ficaram para trás,
é o gosto de morte na boca dos que continuam…

Só uma pessoa no mundo deseja sentir saudade:
aquela que nunca amou.

E esse é o maior dos sofrimentos:
não ter por quem sentir saudades,
passar pela vida e não viver.

O maior dos sofrimentos é nunca ter sofrido."


Pablo Neruda

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Tempo oco

"Talvez amanhã a musa baloice nos diários
de bordo
e as águas embarquem na paisagem
das sílabas à vista.
Hoje foi um dia perverso: um abismo
de contratos falseados
como se a lei caísse na hora cega
de todos os compêndios.
Apetece morrer. Apetece rasgar
este evangelho segundo o tempo oco
e explodir no epicentro dos teus lábios
quentes... quentes... quentes...
incendiário timoneiro do sangue louco."


Alice Fergo, in Versos de Água,
Universitária Poesia