terça-feira, 1 de março de 2011

MAR DE SARGAÇO

Tudo que faço ou medito
Fica sempre na metade.
Querendo, quero o infinito.
Fazendo, nada é verdade.

Que nojo de mim fica
Ao olhar para o que faço!
Minha alma é lúcida e rica,
E eu sou um mar de sargaço -

Um mar onde bóiam lentos
Fragmentos de um mar de além...
Vontades ou pensamentos?
Não o sei e sei-o bem.

Fernando Pessoa in Obra Poética

PERGUNTA

Quem vem de longe e sabe o nome do meu lugar
e levou o caminho das conchas em mar
e dos olhos em rio
- quem vem de longe chorar por mim?

Quem sabe que eu findo de dureza
e condensa ternura em suas mãos
para derramar em afagos
por mim?

Quem ouviu a angústia do meu brado,
sirene de um navio a vadiar no largo,
e me traz seus beijos e sua cor,
perdendo-se na bruma das madrugadas
por mim?

Quem soube das asperezas da viagem
e pediu o pão negado
e o suor ao corpo torturado,
por mim? por mim?

Quem gerou o mundo e lhe deu seu nome
e seu tamanho - imenso, imenso,
e em mim cabe?

(Fernando Namora in Mar de Sargaços)

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Livro dos Amantes

"Pusemos tanto azul nessa distância

ancorada em incerta claridade

e ficamos nas paredes do vento

a escorrer para tudo o que ele invade.


Pusemos tantas flores nas horas breves

que secam folhas nas árvores dos dedos.

E ficámos cingidos nas estátuas

a morder-nos na carne dum segredo".


Natália Correia

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

PROMESAS

"Cómo se llena
el vacío?
Cómo reemplazo
la esperanza?
Palabra dada,
Escrita en arena
Al final,
Con la marea
Se va.

Y vuelvo al lugar,
y busco.
Oigo rumores,
viento suave
que encierra promesa.
Y espero
que el mar
devuelva lo que
se llevó.

Juegan las olas
con mi esperanza.
Subo y bajo
con su vaivén.
El vacío crece,
víctima
y progenitor,
del sueño
de ayer."


Mercurio:
Maestra, traductora y psicoterapeuta norteamericana residente en México.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Damien Rice - The Blower's Daughter - Official Video



And so it's
Just like you said it would be
Life goes easy on me
Most of the time
And so it's
The shorter story
No love, no glory
No hero in her sky


I can't take my eyes off you
I can't take my eyes off you
I can't take my eyes off you
I can't take my eyes off you
I can't take my eyes off you
I can't take my eyes...


And so it's
Just like you said it should be
We'll both forget the breeze
Most of the time
And so it's
The colder water
The blower's daughter
The pupil in denial


I can't take my eyes off you
I can't take my eyes off you
I can't take my eyes off you
I can't take my eyes off you
I can't take my eyes off you
I can't take my eyes...


Did I say that I loathe you?
Did I say that I want to
Leave it all behind?


I can't take my mind off you
I can't take my mind off you
I can't take my mind off you
I can't take my mind off you
I can't take my mind off you
I can't take my mind...
My mind... my mind...
Until I find somebody new

sexta-feira, 23 de julho de 2010

A Arte de Ser Amada

"Eu sou líquida mas recolhida
no íntimo estanho de uma jarra
e em tua boca um clavicórdio
quer recordar-me que sou ária

aérea vária porém sentada
perfil que os flamingos voaram.
Pelos canteiros eu conto os gerânios
de uns tantos anos que nos separam.

Teu amor de planta submarina
procura um húmido lugar.
Sabiamente preencho a piscina
que te dê o hábito de afogar.

Do que não viste a minha idade
te inquieta como a ciência
do mundo ser muito velho
três vezes por mim rodeado
sem saber da tua existência.

Pensas-me a ilha e me sitias
de violinos por todos os lados
e em tua pele o que eu respiro
é um ar de frutos sossegados".

Natália Correia, in "O Vinho e a Lira"

segunda-feira, 31 de maio de 2010

Tentei fugir

"Tentei fugir da mancha mais escura

que existe no teu corpo, e desisti.

Era pior que a morte o que antevi:

era a dor de ficar sem sepultura.


Bebi entre os teus flancos a loucura

de não poder viver longe de ti:

és a sombra da casa onde nasci,

és a noite que à noite me procura.


Só por dentro de ti há corredores

e em quartos interiores o cheiro a fruta

que veste de frescura a escuridão...


Só por dentro de ti rebentam flores.

Só por dentro de ti a noite escuta

o que me sai, sem voz, do coração."


David Mourão-Ferreira -

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Por un beso nada más...

"Bésame con el beso de tu boca,
cariñosa mitad del alma mía:
un solo beso el corazón invoca,
que la dicha de dos... me mataría.

¡Un beso nada más! Ya su perfume
en mi alma derramándose la embriaga
y mi alma por tu beso se consume
y por mis labios impaciente vaga.

¡Júntese con la tuya! Ya no puedo
lejos tenerla de tus labios rojos...
¡Pronto... dame tus labios! ¡Tengo miedo
de ver tan cerca tus divinos ojos!
Hay un cielo, mujer en tus abrazos,
siento de dicha el corazón opreso...
¡Oh! ¡Sosténme en la vida de tus brazos
para que no me mates con tu beso!"

Manuel María Flores


(Nunca podría imaginar que por un beso, tú llegarías a cambiar así mi vida. Conocerte trastornó mi pensamiento...)



www.quedeletras.com

terça-feira, 6 de abril de 2010

Quase de nada místico


"Não, não deve ser nada este pulsar
de dentro: só um lento desejo
de dançar. E nem deve ter grande
significado este vapor dourado,

e invisível a olhares alheios:
só um pólen a meio, como de abelha
à espera de voar. E não é com certeza
relevante este brilhante aqui:

poeira de diamante que encontrei
pelo verso e por acaso, poema
muito breve e muito raso,
que (aproveitando) trago para ti."



de Às Vezes o Paraíso

Ana Luísa Amaral
Anos 90 e agora
Uma Antologia da Nova Poesia Portuguesa
edições quasi

domingo, 14 de março de 2010

PROFECIA

........................................
Quando enfim, pela tarde, te forem casar
Como quem vai levar a menina ao emprego,
Eu hei-de recolher-te uma vaga tristeza
Disfarçada no teu rosto,
Que a beleza mais tua, é gerada
Num desgosto!
E hei-de ouvir gemer uma saudade
Que te ficou sozinha,
Desprezada,
Nessa boca florida e tolhida
Para dizer a verdade!

Mas não posso...
Ai, não posso dizer nada,
Ao frágil corpo ardente de argila queimada
Que a minha mão ansiosa modelou!
E o silêncio de então ficará nos dois versos
Dum poema sublime,
Incompleto
Que se queimou!

E os sinos lamentarão
Indecisos...
E murcharão sorrisos
De inquietação.

Hão-de bater as tuas portas, longamente,
Sem se poder saber quem as empurra!...
Hão-de fechar-se as portas
Brutalmente,
Como ferros de prisão...
- E silenciosamente
Como tampas forradas de caíxão!

E à noite,
Pelos teus corredores,
Vaguearão penitentes,
Medonhos,
Os fantasmas de amores escondidos
Em teus sonhos!

Políbio Gomes dos Santos (Ansião, 1911-1939) in Poemas Campo das Letras

domingo, 7 de março de 2010

BELA D'AMOR

Pois essa luz cintilante
Que brilha no teu semblante
Donde lhe vem o 'splendor?
Não sentes no peito a chama
Que aos meus suspiros se inflama
E toda reluz de amor?

Pois a celeste fragância
Que te sentes exalar,
Pois, dize, a ingénua elegância
Com que te vês ondular
Como se baloiça a flor
Na Primavera em verdor,
Dize, dize: a natureza
Pode dar tal gentileza?
Quem ta deu senão amor?

Vê-te a esse espelho, querida,
Ai! vê-te por tua vida
E diz se há no céu estrela,
Diz-me se há no prado flor,
Que Deus fizesse tão bela
Como te faz, meu amor.


Almeida Garrett in Folhas Caídas

sábado, 6 de março de 2010

O POEMA EM QUE TE BUSCO É A MINHA REDE

O poema em que te busco é a minha rede,
Bem mais de borboletas que de peixes,
E é o copo em que te bebo: morro à sede
Mas ainda és margarida e não-me-deixes
E muito mais, no enumerar das coisas:
Cordão de laço e corda de violino,
Saliva de verdade nalgum beijo,
E poisas
Como ave de aço em pão se não te vejo.
Mas onde mais real do céu me avisas
É nas tuas camisas,
Calças de cor no catre bem dobradas.
E és os meus pensamentos, se te ausentas,
Meu ciúme escuro como vinho em toalha;
E o branco circular das horas lentas
Que um perfurante amor lembrado espalha.
Põe o penso no velo intercrural
Com um atilho vertical:
Rosa coberta esquiva
Quer a mão do desejo, quer
O conhecido cravo da agressão
Que estendo às tuas formas de mulher,
Com esta soma e verbal precaução
De um fónico doutor de Mompilher.

Vitorino Nemésio in Cadernos de Caligrafia
e Outros Poemas a Marga

ADORMECER

Vai vida na madrugada fria.

O teu amante fica,
na posse deste momento que foi teu,
amorfo e sem limites como um anjo;
a cabeça cheia de estrelas...
Fica abraçado a esta poeira que teu pé levantou,
Fica inútil e hirto como um deus,
desfalecendo na raiva de não poder seguir-te!

Manuel da Fonseca in Poemas Dispersos

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

O Coração

"Demos-lhe sementes; não muitas,
mas quanto bastasse para não se cansar;
água lhe demos, apenas um dedal,
para que os céus lhe batessem no olhar
e à gaiola um pequeno espelho prendemos
para de frente a nuvem poder
contemplar.
Quieta se sentava, com as
asas palpitantes


Assim ela cantava"


Solveig Von SCHOULTZ,
poeta Finlandês(1907-1986);
Trad.: José Agostonho Baptista

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Esta noite

"Esta noite o vento ceifa os bosques e
uma raiva sacode a terra. Se a voz
do mar chamasse pelas velas, os estreitos
aguardariam um naufrágio. E se dissesses
o meu nome eu morreria de amor.

Devo, por isso, afastar-me de ti – não
por ter medo de morrer (que é de já não
o ter que tenho medo), mas porque a chuva
que devora as esquinas é a única canção
que se ouve esta noite sobre o teu silêncio."


Maria do Rosário Pereira

domingo, 31 de janeiro de 2010

Te siento

Te siento cada dia rozándome invisible
sutilmente impalpable.
Y aunque sé que siempre te he llevado conmigo
eres siempre la suave, dulcemente imposible
lejania luminosa...

Te siento cada dia cantar, mas no sé donde.
Eres algo que vive más allá de mi mismo
y aunque siempre eres nube y horizonte lejano
senti tu beso sobre mi alma!

Mi espiritu solitario te sueña en todas las cosas
Mi alma te busca tras toda emoción
Mi camino está lleno de tu nombre!
Lejana!...Dónde estás?...Dónde estás?

Renato Huerta

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Como açucena



Como açucena, abre-se o teu rosto
Por sobre a doce, tímida paisagem;
Serena imagem
Na manhã de Agosto.

Como magnólia, vertes o perfume
Das tuas ancas sobre o pinheiral;
Ávido de lume,
Casto e sensual.

Como pinho selvagem, te recebo
E amo no chão de areia ensolarado;
Ingénuo efebo
Deslumbrado.


Daniel Filipe

domingo, 24 de janeiro de 2010

Chamamento

"Da margem do sonho
e do outro lado do mar
alguém me estremece
sem me alcançar.

Um bafo de desejo
chega, vago, até mim.
Perfume delido
de impossível jasmim.

É ele que me sonha?
Sou eu a sonhar?
Sabê-lo seria
desfazer, no vento,
tranças de luar.
Nuvens,
barcos,
espumas
desmancham-se na noite.

E a vida lateja, longe,
num outro lugar."


Luísa Dacosta in
Cem Poemas Portugueses no Feminino,
Terramar

sábado, 23 de janeiro de 2010

Foste o beijo melhor da minha vida

Foste o beijo melhor da minha vida,
ou talvez o pior... Glória e tormento,
contigo à luz subi do firmamento,
contigo fui pela infernal descida!

Morreste, e o meu desejo não te olvida:
queimas-me o sangue, enches-me o pensamento
e do teu gosto amargo me alimento,
e rolo-te na boca malferida.

Beijo extremo, meu prémio e meu castigo,
baptismo e extrema-unção, naquele instante
por que, feliz, eu não morri contigo?

Sinto-me o ardor, e o crepitar te escuto,
beijo divino! e anseio delirante,
na perpétua saudade de um minuto...

Olavo Bilac

Rodrigo Leão - Happiness


cortesia de www.letras.com.br

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Condenado estou a te amar

Condenado estou a te amar
nos meus limites
até que exausta e mais querendo
um amor total, livre das cercas,
te depeça de mim, sofrida,
na direcção de outro amor
que pensas ser total e total será
nos seus limites da vida...

O amor não se mede
pela liberdade de se expor nas praças
e bares, em empecilho.
É claro que isto é bom e, às vezes,
sublime.
Mas se ama também de outra forma, incerta,
é este o mistério:

- Ilimitado o amor às vezes se limita,
proibido é que o amor às vezes se liberta.

Affonso Romano de Sant'Anna

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Era o último amor

Era o último amor. A casa fria,
os pés molhados no escuro chão.
Era o último amor e não sabia
esconder o rosto em tanta solidão.

Era o último amor. Quem adivinha
o sabor pela escuridão?
Quem oferece frutos nessa neve?
Quem rasga com ternura o que foi verão?

Era o último amor, o mais perfeito
fulgor do que viveu sem as palavras.
Era o último amor, perfil desfeito
entre lumes e vozes passadas.

Era o último amor e não sabia
que os pés à terra nua oferecia.

Luís Filipe Castro Mendes

Eu sei e você sabe

Eu sei e você sabe
Já que a vida quis assim
Que nada nesse mundo levará você de mim
Eu sei e você sabe
Que a distância não existe
Que todo grande amor
Só é bem grande se for triste
Por isso meu amor
Não tenha medo de sofrer
Que todos os caminhos
Me encaminham a você.

Assim como o Oceano, só é belo com o luar
Assim como a Canção, só tem razão se se cantar
Assim como uma nuvem, só acontece se chover
Assim como o poeta, só é bem grande se sofrer
Assim como viver sem ter amor, não é viver
Não há você sem mim
E eu não existo sem você!

Vinicius de Moraes

Quando eu nasci

Quando eu nasci,
ficou tudo como estava,
Nem homens cortaram veias,
nem o Sol escureceu,
nem houve Estrelas a mais...
Somente,
esquecida das dores,
a minha Mãe sorriu e agradeceu.

Quando eu nasci,
não houve nada de novo
senão eu.

As nuvens não se espantaram,
não enlouqueceu ninguém...

P'ra que o dia fosse enorme,
bastava
toda a ternura que olhava
nos olhos de minha Mãe...

José Régio

Eu pronuncio o teu nome

Eu pronuncio o teu nome
nas noites escuras,
quando vêm os astros
beber na lua
e dormem nas ramagens
das frondes ocultas.
E eu me sinto oco
de paixão e de música.
Louco relógio que canta
mortas horas antigas.

Eu pronuncio teu nome,
nesta noite escura,
e teu nome me soa
mais distante que nunca.
Mais distante que todas as estrelas
e mais dolente que a mansa chuva.

Amar-te-ei como então
alguma vez? Que culpa
tem meu coração?
Se a névoa se esfuma,
que outra paixão me espera?
Será tranquila e pura?
Se meus dedos pudessem
desfolhar a lua!

Garcia de Lorca Nascido em 1898 num pequeno lugar da Andaluzia e foi assassinado em Granada com um tiro na nuca em 1936. Acusação de um deputado católico: "Ele seria mais perigoso com a caneta do que outros com as armas".

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Pela luz dos olhos teus

Quando a luz dos olhos meus
E a luz dos olhos teus
Resolvem se encontrar
Ai que bom que isso é meu Deus
Que frio que me dá o encontro desse olhar
Mas se a luz dos olhos teus
Resiste aos olhos meus só pra me provocar
Meu amor, juro por Deus me sinto incendiar

Meu amor, juro por Deus
Que a luz dos olhos meus já não pode esperar
Que a luz dos olhos meus
Na luz dos olhos teus sem mais lará-lará
Pela luz dos olhos teus
Eu acho meu amor que só se pode achar
Que a luz dos olhos meus precisa se casar.

Vinicius de Moraes

SONETO DE FIDELIDADE

De tudo, ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Que vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei-de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento.

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive)
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.

Vinicius de Moraes

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Canção sem ti

"Sem ti
que me importa que o sol mude de cor
sem ti
já não me interessa mais seja o que for
sem ti
é como um jardim sem uma flor
viver sem ti
não é viver meu amor

Viver sem ti
é como se já nada mais houvesse
sem ti
é como se outro dia não nascesse
viver sem ti
é como se o meu peito não batesse
quero dizer
viver sem ti é morrer

Sem ti
sem a cama dos teus braços
ficarei à tua espera
porque sem ouvir teus passos
nunca mais é primavera

Viver sem ti
é pior que enlouquecer
não sentir nenhuma dor
é lutar por te esquecer
e esquecer-te meu amor
é não viver

Sem ti
podem morrer estrelas no universo
sem ti
não poderei cantar nem mais um verso
sem ti
nenhuma madrugada há-de chegar
viver sem ti
é não poder mais amar
...
é como se já nada mais houvesse
...
é como se outro dia não nascesse
...
é como se o meu peito não batesse
quero dizer
viver sem ti é morrer!"

TONICHA(P. de Senneville/O. Toussaint)
(Arranjo: Pedro Osório)

sobre "A Comme Amour"

Quando eu morrer

Quando eu morrer, não digas a ninguém que foi por ti.
Cobre o meu corpo frio com um desses lençóis
que alagámos de beijos quando eram outras horas
nos relógios do mundo e não havia ainda quem soubesse
de nós; e leva-o depois para junto do mar, onde possa
ser apenas mais um poema - como esses que eu escrevia
assim que a madrugada se encostava aos vidros e eu
tinha medo de me deitar só com a tua sombra. Deixa

que nos meus braços pousem então as aves (que, como eu,
trazem entre as penas as saudades de um verão carregado
de paixões). E planta à minha volta uma fiada de rosas
brancas que chamem pelas abelhas, e um cordão de árvores
que perfurem a noite - porque a morte deve ser clara
como o sal na bainha das ondas, e a cegueira sempre
me assustou (e eu já ceguei de amor, mas não contes
a ninguém que foi por ti). Quando eu morrer, deixa-me

a ver o mar do alto de um rochedo e não chores, nem
toques com os teus lábios a minha boca fria. E promete-me
que rasgas os meus versos em pedaços tão pequenos
como pequenos foram sempre os meus ódios; e que depois
os lanças na solidão de um arquipélago e partes sem olhar
para trás nenhuma vez: se alguém os vir de longe brilhando
na poeira, cuidará que são flores que o vento despiu, estrelas
que se escaparam das trevas, pingos de luz, lágrimas de sol,
ou penas de um anjo que perdeu as asas por amor.

Maria do Rosário Pedreira

Sexta-feira à noite

Sexta-feira à noite
Os homens acariciam o clitóris das esposas
com os dedos molhados de saliva.
O mesmo gesto com que todos os dias
contam dinheiro, papéis, documentos
e folheiam nas revistas
a vida dos seus ídolos.

Sexta-feira à noite
os homens penetram as suas esposas
com tédio e pénis.
O mesmo tédio com que todos os dias
enfiam o carro na garagem,
o dedo no nariz
e metem a mão no bolso
para coçar o saco.

Sexta-feira à noite
os homens ressonam de borco
enquanto as mulheres no escuro
encaram o seu destino
e sonham com o príncipe encantado.

(Marina Colasanti)

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Adeus, até à vista

"Disse-te adeus, até à vista,
Só tu não reparaste nos meus olhos....
Disse-te adeus, mas trouxe-te comigo
E não foram só os teus olhos
Vieste toda
Disse-te adeus com lágrimas que não viste
Mas vieste dentro de mim
Amarrada em meu coração
Disse-te adeus com a mão
Mas parti contigo
No meu sonho
Na nossa ilusão
E aquele beijo que me atiraste
Tenho-o aqui guardado
Como um tesouro"


Raferial

domingo, 3 de janeiro de 2010

Estrada

"Meu amor não quero mais palavras rasgadas.
Nem o tempo cheio dos pedaços de nada.
Não me dês sentidos para chegar ao fim.
Meu amor... só quero ser feliz.
Meu amor não quero mais razões p'ra apagar.
O que nasce e renasce e nos faz acordar.
A loucura faz medo se for medo o teu chão.
Mas é ar e é terra dentro do coração.
É ar e é terra dentro do coração.
Meu amor não quero mais silêncio escondido.
Nem a dor do que cai em cada gesto ferido.
Quero janelas abertas e o sol a entrar.
Quero o meu mundo inteiro dentro do teu olhar.
Eu quero o meu mundo inteiro dentro do teu olhar.
E hoje vê a estrada é feita para seguir.
E hoje sente a vida é feita de sentir.
E hoje vira do avesso o mundo e vê melhor.
Deste lado é mais puro.
É teu, é tão maior.
Deste lado é mais puro.
É meu, é tão maior.
(…)"


Mafalda Veiga,
in Estrada

sábado, 2 de janeiro de 2010

Ponto de orvalho

"Nem se chega a saber como
um inusitado sorriso,
um volver de olhos doentes,
um caminhar indeciso
e cego por entre as gentes,
chamam a si, aglutinam,
essa dor que anda suspensa
( e é dor de toda a maneira)
como o vapor se condensa
sobre núcleos de poeira.
É essa angústia latente
boiando no ar parado
como um trovão iminente,
que em muda voz se pressente
num simples olhar trocado.
Essa angústia universal,
esse humano desespero,
revela-se num sinal,
numa ferida natural
que rói com lento exagero.
Não deita sangue nem pus,
não se mede nem se pesa,
não diz, não chora, não reza,
não se explica nem traduz.
A gente chega, respira,
olha, sorri, cumprimenta,
fala do frio que apoquenta
ou do suor que transpira,
e pronto, sem saber como,
inútil, seco, vazio,
cai na penumbra do rio,
emerge, bóia, soçobra,
fácil e desinteressado
como um papel que se dobra
por onde já foi dobrado."


António GedeãoObra Poética
Edições João Sá da Costa, 2001

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Não Sei

"não sei

se o nevoeiro não abrir
como posso eu encontrar caminhos
por entre esses silvados

as valas não as sinto
nem os chocalhos dão sinais

não sei se o nevoeiro

que as árvores soltam-se do cinzento
só por momentos

o silêncio tapa-me a visão
não ouço o horizonte

posso ficar assim
parado sem medidas
flutuando entre o orvalho e a erva
silencioso e solto"




Henrique Ruivo
in branco azul ocre

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

I Dreamed a Dream



"I dreamed a dream in time gone by
When hopes were high and life worth living,
I dreamed that love would never die
I dreamed that God would be forgiving

Then I was young and unafraid,
When dreams were made and used and wasted
There was no ransom to be payed,
No song unsung, no wine untasted

But the tigers come at night,
With their voices soft as thunder,
As they tear your hope apart
As they turn your dreams to shame

And still I dreamed he'd come to me
And we would live the years together,
But there are dreams that cannot be
And there are storms we cannot weather

I had a dream my life would be
So different from this hell I'm living
So different now from what it seemed
Now life has killed the dream I dreamed"

domingo, 20 de dezembro de 2009

Não posso adiar o amor

"Não posso adiar o amor para outro século
não posso
ainda que o grito sufoque na garganta
ainda que o ódio estale e crepite e arda
sob as montanhas cinzentas
e montanhas cinzentas

Não posso adiar este braço
que é uma arma de dois gumes amor e ódio

Não posso adiar
ainda que a noite pese séculos sobre as costas
e a aurora indecisa demore
não posso adiar para outro século a minha vida
nem o meu amor
nem o meu grito de libertação

Não posso adiar o coração."



António Ramos Rosa

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Memória/Memórias

"A memória é, assim como um album que nos restitui mais ou menos intactos os fragmentos da experiência" (François Pire)

"(...) Com o tempo, um princípio de entropia corrói a recordação, que fica como que roída pela traça, lacunar, se desafia e, in extremis,quando a queremos reconstituir passados tantos anos, só nos restam bocados incertos..."(Morin,1987. As grandes questões do nosso tempo
Ed. Notícias, pp. 17)

"Como todas as coisas do Universo, a memória sofre a degradação e a desintegração, o que se chama esquecimento (...) A diminuição da memória é ininterrupta. A própria memória tende a tornar-se lacunar, incorrecta, enganadora. Além disso, como vimos, sofre profundamente o efeito das forças de recalcamento, que expulsam a recordação incómoda, e das forças de transfiguração e mitologização, que legendarizam a recordação" (ibidem)

"Recordar é reconstruir, 'aprender no coração ou literalmente dar de novo ao coração'" (Cabral, 1998. Pensar a emoção, Ed. Fim de Século, pp. 193)

"Uma boa memória é útil; mas também o é a capacidade de esquecer" (Myers)

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

"Quase não sei esperar o inesperado,
a rede que se parte e a outra rede
que se reparte: o não saber esperar
com a paciência antiga do silêncio
sentado mansamente ao nosso lado.

Quase não sei sonhar o amargo espanto
de estar aqui à porta de uma lua
que dá para um jardim que deu outrora
para um caminho que não finda nunca
tão pura e simplesmente ao fim da rua."



Maria Alberta Menéres in
Cem poemas portugueses no feminino.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Não sei se respondo ou se pergunto.

"Não sei se respondo ou se pergunto.
Sou uma voz que nasceu na penumbra do vazio.
Estou um pouco ébria e estou crescendo na pedra.
Não tenho a sabedoria do mel ou a do vinho.
De súbito ergo-me como uma torre de sombra fulgurante.
A minha ebriedade é a da sede e a da chama.
Com esta pequena centelha quero incendiar o silêncio.
O que eu amo não sei. Amo. Amo em total abandono.
Sinto a minha boca dentro das árvores e de uma oculta nascente.
Indecisa e ardente, algo ainda não é flor em mim.
Não estou perdida, estou entre o vento e o olvido.
Quero conhecer a minha nudez e ser o azul da presença.
Não sou a destruição cega nem a esperança impossível.
Sou alguém que espera ser aberto por uma palavra".


António Ramos Rosa

sábado, 29 de agosto de 2009

Sei de um rio

"Sei de um rio
sei de um rio
em que as únicas estrelas
nele sempre debruçadas
são as luzes da cidade

Sei de um rio
sei de um rio
rio onde a própria mentira
tem o sabor da verdade
sei de um rio

Meu amor dá-me os teus lábios
dá-me os lábios desse rio
que nasceu na minha sede
mas o sonho continua

E a minha boca até quando
ao separar-se da tua
vai repetindo e lembrando
sei de um rio
sei de um rio

Sei de um rio
até quando"

Pedro Homem de Melo

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Aimons toujours! Aimons encore!...


"Aimons toujours! Aimons encore!
Quand l'amour s'en va, l'espoir fuit.
L'amour, c'est le cri de l'aurore,
L'amour c'est l'hymne de la nuit.

Ce que le flot dit aux rivages.
Ce que le vent dit aux vieux monts,
Ce que l'astre dit aux nuages,
C'est le mot ineffable: Aimons!

L'amour fait songer, vivre et croire.
Il a pou rechauffer le coeur,
Un rayon de plus que la gloire,
Et ce rayon c'est le bonheur!

Aime! qu'on les loue ou les blâme,
Toujours les grands coeurs aimeront:
Joins cette jeunesse de l'âme
A la jeunesse de ton front!

Aime, afin de charmer tes heures!
Afin qu'on voie en tes beaux yeux
Des voluptés intérieures
Le sourire mystérieux!

Aimons-nous toujours davantage!
Unissons-nous mieux chaque jour.
Les arbres croissent en feuillage;
Que notre âme croisse en amour!

Soyons le miroir et l'image!
Soyons la fleur et le parfum!
Les amants, qui, seuls sous l'ombrage,
Se sentent deux et ne sont qu'un!

Les poètes cherchent les belles.
La femme, ange aux chastes faveurs,
Aime à refraîchir sous les ailes
Ces grand fronts brûlants et rêveurs.

Venez à nous, beautés touchantes!
Viens à moi, toi, mon bien, ma loi!
Ange! viens à moi quand tu chantes,
Et, quand tu pleures, viens à moi!

Nous seuls comprenons vos extases.
Car notre esprit n'est point moqueur;
Car les poètes sont les vases
Où les femmes versent leur coeurs.

Moi qui ne cherche dans ce monde
Que la seule réalité,
Moi qui laisse fuir comme l'onde
Tout ce qui n'est que vanité.

Je préfère aux biens dont s'enivre
L'orgueil de sodat ou du roi,
L'ombre que tu fais sur mon livre
Quand ton front se penche sur moi.

Toute ambition allumée
Dans notre esprit, brasier subtil,
Tombe en cendre ou vole en fumée,
Et l'on se dit: "Qu'en reste-t-il?"

Tout plaisir, fleur à peine éclose
Dans notre avril sombre et terni,
S'effeuille et meurt, lis, myrte ou rose,
Et l'on se dit: "C'est donc fini!"

L'amour seul reste. O noble femme
Si tu veux dans ce vil séjour,
Garder ta foi, garder ton âme,
Garder ton Dieu, garder l'amour!

Conserve en ton coeur, sans rien craindre,
Dusses-tu pleurer et souffrir,
La flamme qui ne peut s'éteindre
Et la fleur qui ne peut mourir!"


Victor Hugo - Les Contemplations

quinta-feira, 30 de julho de 2009

BESOS

Abro um pouco o A
Beijo com vontade o M
Contorno bem o O
E faço cócegas ao R

Assim mostro o que sinto

Se te soletrar, direi:

A de Amor
M de muito Amor
O de obviamente Amor
R de repetido Amor

Se te desenhar, será com:

Um redondo Arco
Feito à Mão livre
Na mais linda Obra
Que me sai sem Rascunho

E pronto...
Sais sempre Tu
Sai sempre AMOR!

Besos

(Autor desconhecido)

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Sofro de não te Ver

"Sofro
de não te ver,
de perder
os teus gestos
leves, lestos,
a tua fala
que o sorriso embala,
a tua alma
límpida, tão calma...

Sofro
de te perder,
durante dias que parecem meses,
durante meses que parecem anos...

Quem vem regar o meu jardim de enganos,
tratar das árvores de tenrinhos ramos?"


Saúl Dias, in "Sangue (Inéditos)"

terça-feira, 7 de julho de 2009

Lo que necesito de ti

"No sabes como necesito tu voz;
necesito tus miradas
aquellas palabras que siempre me llenaban,
necesito tu paz interior;
necesito la luz de tus labios
!!! Ya no puedo... seguir así !!!
...Ya... No puedo

Mi mente no quiere pensar
no puede pensar nada más que en ti.
Necesito la flor de tus manos
aquella paciencia de todos tus actos
con aquella justicia que me inspiras
para lo que siempre fue mi espina
mi fuente de vida se ha secado
con la fuerza del olvido...
me estoy quemando;
aquello que necesito ya lo he encontrado
pero aun !!!Te sigo extrañando!!!"


(Mario Benedetti)

Te quiero

"Mi corazón no ha dormido
a latido sin parar
es así como te quiero
todo el tiempo sin cesar

Tu sonrisa invade mi alma
tu imagen conmigo está,
demuéstrame que me quieres,
porque es muy dificil vivir
amando con quien no siente amor

El amor es como el viento
no se ve pero se siente
quisiera estar en tu mente
pues sin ti siento la muerte

Al estar siempre a tu lado
tu calor hechiza mi alma
tus brazos me hacen soñar
y pienso que tu me amas.

Quiero pedirte una cosa
que alimentes este amor
para yo seguir viviendo
teniendo esta ilusión"


(Maria Luz Novoa O )

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Nunca Me Esqueci De Ti

"Bato a porta devagar,
Olho só mais uma vez
Como é tão bonita esta avenida...
É o cais. Flor do cais:
Águas mansas e a nudez
Frágil como as asas de uma vida

É o riso, é a lágrima
A expressão incontrolada
Não podia ser de outra maneira
É a sorte, é a sina
Uma mão cheia de nada
E o mundo à cabeceira

Mas nunca
Me esqueci de ti

Tudo muda, tudo parte
Tudo tem o seu avesso.
Frágil a memória da paixão...
É a lua. Fim da tarde
É a brisa onde adormeço
Quente como a tua mão

Mas nunca
Me esqueci de ti
Eu nunca
Me esqueci de ti
Não, nunca me esqueci de ti
E eu nunca me esqueci de ti"


Rui Veloso

quinta-feira, 4 de junho de 2009

As velas da memória

"Há nos silvos que as manhãs me trazem
chaminés que se desmoronam:
são a infância e a praia os sonhos de partida


Abrir esse portão junto ao vento que a vida
aquém ou além desta me abre?
Em que outro mundo ouvi o rouxinol
tão leve que o voo lhe aumentava as asas?
Onde adiava ele a morte contra os dias
essa primeira morte?
Vinham núpcias sem conto na inconcebível voz
Que plenitude aquela: cantar
como quem não tivesse nenhum pensamento.


Quem me deixou de novo aqui sentado à sombra
deste mês de junho? Como te chamas tu
que me enfunas as velas da memória ventilando: «aquela vez...»?


Quando aonde foi em que país?
Que vento faz quebrar nas costas destes dias
as ondas de uma antiga música que ouvida
obriga a recuar a noite prometida
em círculos quebrados para além das dunas
fazendo regressar rebanhos de alegrias
abrindo em plena tarde um espaço ao amor?
Que morte vem matar a lábil curva da dor?
Que dor me faz doer de não ter mais que morrer?


E ouve-se o silêncio descer pelas vertentes da tarde
chegar à boca da noite e responder"




Ruy Belo
Aquele Grande Rio Eufrates

domingo, 31 de maio de 2009

E por vezes

"E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos E por vezes

encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes

ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos

E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se evolam tantos anos"

David Mourão-Ferreira

quinta-feira, 7 de maio de 2009

No sé

"No sé adónde vas, ni por qué caminos
te lleva el destino que nunca acierto
a descubrir la ruta de tus pasos,
la senda que conduce a tu universo.

No sé lo que siento, o qué me pasa,
que a veces la noche me desborda,
el frío de la muerte entra en mis huesos
y se adueña de mi alma de gaviota.

No sé de qué manera, ni sé dónde,
ni sé cómo, ni sé cuando empezó
a trepar la amargura por mis venas
y a herirme la negrura del carbón.

No sé por qué el amor izó sus velas
más audaces si sabía que el flujo
del viento y la marea de la vida
te arrastrarían lejos de mi mundo.

No sé con qué ternura vestirán
tu cuerpo mis abrazos si algún día
las olas derramaran en mis playas
la espuma de tu loca fantasía.

No sé qué, ni sé como, ni sé cuando,
ni dónde, ni por qué, ni de qué modo
se abrirá la serpentina del tiempo
y pondrá al descubierto tus tesoros.

No lo sé, pero te espero aquí, anclado
en la amarga bahía del insomnio."


Fernando L. Pérez Poza - escritor pontevedrés.

domingo, 3 de maio de 2009

MÃE (Confidências)

Mãe! dói-me o peito. Bati com o peito contra a estátua que tem em cima o verbo ganhar. Ainda não sei como foi. Eu ia tão contente! eu ia a pensar em ti e no verbo saber e no verbo ganhar. Estava tudo a ser tão fácil! Já estava a imaginar a tua alegria quando eu voltasse a casa com o verbo saber e o verbo ganhar, um em cada mão!
Dói-me muito o peito, Mãe! passa a tua mão pela minha cabeça!

Mãe! Já não volto à cidade sem ir contigo! para a cidade ser bonita. Irmos os dois juntos de braço-dado, e andarmos assim a passear; para ver como tudo está posto na cidade por causa de ti e de mim e por causa dos outros que andam de braço-dado.

Mãe! dize essa metade que tu sabes do que é necessário saber, dize essa metade que tu sabes tão bem! para eu pensar na outra metade.
Se não houvesse senão homens e saltimbancos eu ia buscar a outra metade, mas os saltimbancos estão vestidos como os homens, e os homens estão vestidos como os saltimbancos, ambos estão vestidos de uma só maneira, não sei quais são os homens nem os saltimbancos, eles também não sabem, - não há senão losangos de arlequim!

Mãe! quando eu vinha para casa a multidão ia na outra direcção. Tive de me fazer ainda mais pequeno e escorregadio, para não ir na onda.
Perguntei para onde iam tão unidos, assim, com tanto balanço. Responderam-me: Para diante! para a frente!
Fiquei a pensar na multidão.

O meu anjo da guarda disse-me: Pronto! A multidão já passou, levou um quarto de hora a passar. A multidão não é senão aquilo que levou um quarto de hora a passar. Pronto! Já está vista! anda daí!

O meu anjo da guarda está sempre a dizer-me: De que estás à espera? Vá, anda! Começa já! Começa já a cuidar da tua presença!
Não sei o que o meu anjo da guarda quer que eu adivinhe em tais palavras.
Outras vezes, o meu anjo da guarda pede-me que seja eu o anjo da guarda dele.

Mãe!
Hoje acordei todo virado para diante. Assim, como tu compreendes, Mãe!
Vi as coisas do ar que havia, as coisas que estavam focadas com o ar de hoje. As lembranças já estão inteiras, muito poucos os minutos falsos.
Fiz todas as horas do sol e as da sombra. Ao chegar a noite estive de acordo com o Sol no que houve desde manhã até ser bastante luz por hoje. Depois veio o sono. E o sono chegou a horas. Antes do sono ainda houve uma imagem - um leão a dormir!
Na verdade, não há sono mais bem ganho do que o de um leão a dormir com restos de sangue no focinho, como os leões de pedra que há nas escadarias por onde se sobe depois da batalha!

Almada Negreiros in 4 poesias - Obras Completas
Editorial Estampa

ACERCA DO HOMEM E DA MULHER

Lembro-me de uma oleografia que havia em minha casa. A oleografia estava cheia de amarelo do Deserto. O amarelo do Deserto era mais comprido do que a vida de um homem se não fosse o galope do cavalo onde o árabe rapta a menina loira.
Na oleografia havia uma palmeira. A palmeira era tão pequena como a esmeralda do anel da menina loira. A palmeira era assim tão pequena porque estava muitíssimo longe.
Era em direcção à palmeira que ia a correr o cavalo.
Havia outra oleografia quando já tinham chegado à sombra da palmeira. O cavalo estava como morto por terra. O árabe, esse, ainda nunca tinha estado cansado - tinha a menina loira nos braços, como a esmeralda estava no anel.
Eram três as oleografias. Na terceira oleografia estava sozinha a menina loira a dar de mamar a um menino verdadeiro.

Almada Negreiros in 4 poesias - Obras Completas
Editorial Estampa

CONFIDÊNCIAS

Mãe! a oleografia está a entornar o amarelo do Deserto por cima da minha vida. O amarelo do Deserto é mais comprido do que um dia todo!
Mãe! eu quero ser o árabe! Eu queria raptar a menina loira! Eu queria saber raptar.
Dá-me um cavalo, Mãe! Até à palmeira verde esmeralda! E o anel?!

A minha cabeça amolece ao sol sobre a areia movediça! do Deserto! A minha cabeça está mole como a minha almofada!

Há uns sinais dentro da minha cabeça, como os sinais do Egipcío, como os sinais do Fenício. Os sinais destes já têm antecedentes e eu ainda vou para a vida.

Não há muros para que haja estrada! Não há muros para pôr cartazes! Não está a mão de tinta preta a apontar - por aqui!

Só há sombra do sol nas laranjeiras da outra margem, e todas as noites o sono chega roubado!

Mãe! As estrelas estão a mentir. Luzem quando mentem. Mentem quando luzem. Estão a luzir, ou mentem?
Já ia a cuspir para o céu!
Mãe! a minha estrela é doida! Coube-me nas sortes a Estrela-doida!

Mãe! dá-me um cavalo! Eu já sou o galope! Há uma palmeira, Mãe! O que quer dizer um anel? Tem uma esmeralda.

Mâe! eu quero ser as três oleografias!

*
Mãe!
Em cima das estátuas está o verbo ganhar, Mãe! será para mim?
Quando passo pelas estátuas fico parado. A olhar para cima das estátuas. Fico parado a subir. Não sei quem me agarra para me levantar no ar. Agarram-me por debaixo dos braços para me levantar ao ar. Para eu ver o verbo ganhar em cima das estátuas.
*
Mãe! eu não sei nada! Eu não me lembro de nada!
Ah! lembro-me de ter ajudado a levar pedras para as pirâmides do Egipto!
Também me lembro de me ter chamado José, antigamente, com meus irmãos e uma mulher!
Mãe!
Estou a lembrar-me! Tu já foste a menina loira! Eu já fui menino verdadeiro a quem tu davas de mamar! Eu já estive contigo na terceira oleografia!
Lembro-me exactamente! Quando tu me beijavas, o Sol não doía tanto na minha pele!
Mãe!
Estou a lembra-me!
E as tardes quando íamos todos juntos soltar palavras no cais e ver chegar mais laranjas!
Outras vezes juntávamo-nos na praia para nadar melhor do que os outros e deixar o sol queimar quem mais merecesse. Já as laranjas estavam contentes com o que chegasse primeiro! O melhor jovem ganhava a melhor rapariga. Os outros sabiam aquela que tinham ganhado.
Eu tinha ganho a minha.
De uma vez, quando deixávamos o cais, entornou-se o cesto das tangerinas. Foi a alegria! E uma das raparigas pôs-se a cantar o sucedido às tangerinas a rolar para o mar:
Tam
tam-tam
tanque
estanque
tangerina bola
tangerina bóia
tangerina ina
tangerininha
pacote roto
batuque nu
quintal da nora
e o dique
e o Duque
e o aqueduto
do Cuco
Rei Carmim
e tamarindos
e amarelos
de Mahomet
ali
e lá
e acolá
..
Almada Negreiros in 4 poesias - Obras Completas
Editoral Estampa

O LIVRO

*****
Comprei um livro de filosofia. Filosofia é a ciência que trata da vida era justamente do que eu necessitava - pôr `ciência na minha vida.
Li o livro de filosofia, não ganhei nada, Mãe! não ganhei nada.
Disseram-me que era necessário estar já iniciado, ora eu só tenho uma iniciação, é esta de ter sido posto neste mundo à imagem e semelhança de Deus. Não basta?

*
Imaginava eu que havia tratados da vida das pessoas, como há tratados da vida das plantas, com tudo tão bem explicado, assim parecidos com o tratamento que há para os animais domésticos, não é? Como os cavalos tão bem feitos que há!
Imaginava eu que havia um livro para as pessoas, como há hóstias para cuidar da febre. Um livro com tanta certeza como uma hóstia. Um livro pequenino, com duas páginas como uma hóstia. Um livro que dissesse tudo, claro e depressa, como um cartaz, com a morada e o dia.
*
Não achas, Mãe! Por exemplo. Há um cão vadio, sujo e com fome, cuida-se deste cão e ele deixa de ser vadio, deixa de estar sujo e deixa de ter fome. Até as crianças já lhe fazem festas.
Cuidaram do cão porque o cão não sabe cuidar de si - não saber cuidar de si é ser cão.
Ora eu não queria que cuidassem de mim, mas gostava que me ajudassem, para eu não estar assim, para que fosse eu o dono de mim, para que os que me vissem dissessem: Que bem que aquele soube cuidar de si!
*
Eu queria que os outros dissessem de mim: Olha um homem! Como se diz: Olha um cão! quando passa um cão; como se diz: Olha uma árvore! quando há uma árvore. Assim inteiro; sem adjectivos, só de uma peça: Um homem!
*
Mas eu andei a procurar por todas as vidas uma para copiar e nenhuma era para copiar.
Como o livro, as pessoas tinham princípio, meio e fim. A princípio o livro chamava-me, no meio o livro deu-me a mão, no fim fiquei com a mão suada do livro me ter estendido a mão.
Talvez que nos outros livros... mas os títulos dos livros são como os nomes das pessoas - não quer dizer nada, é só para não se confundir.
*
Na montra estava um livro chamado «O Leal Conselheiro». Escrito por um Rei dos Portugueses! Escrito de uma só maneira para todas as espécies de seus vassalos!
Bendito homem que foi na verdade Rei! O Mestre que quer que eu seja Mestre!
Eu acho que todos os livros deviam chamar-se assim. «O Leal Conselheiro»! Não achas, Mãe!
O Mestre escreveu o que sabia - por isso ele foi Mestre. As palavras tornaram presentes como o Mestre fazia atenção. Estas palavras ficaram escritas por causa dos outros também. Os outros aprendiam a ler para chegarem a Mestres - era com esta intenção que se aprendia a ler antigamente.
*
Sonhei com um país onde todos chegavam a Mestres. Começava cada qual por fazer a caneta e o aparo com que se punha à escuta do universo; em seguida, fabricava desde a matéria-prima o papel onde ia assentando as confidências que recebia directamente do universo; depois, descia até ao fundo dos rochedos por causa da tinta negra dos chocos; gravava letra por letra o tipo com que compunha as suas palavras; e arrancava da árvore a prensa onde apertava com segurança as descobertas para irem ter com os outros. Era assim que neste país todos chegavam a Mestres. Era assim que os Mestres iam escrevendo as frases que hão-de salvar a humanidade.
Almada Negreiros in 4 poesias - Obras Completas
Editorial Estampa

quarta-feira, 22 de abril de 2009

SOL DA MEIA-NOITE

"Sinto frio e está sol
sinto saudades
lembranças do futuro.
Criei o meu próprio veneno
e morro-me
sinto saudades
e está frio
e não há vento que me leve
até ti
Está frio.
Vejo
e o meu pensamento
perde-se em sonhos de sonhos
Compreendo o nada de mim
Não.
Não vou virar a página do livro
que nunca li
do livro que nunca abri."

(Raferial)

sábado, 11 de abril de 2009

Woman In Love




www.quedeletras.com


Barbra Streisand

domingo, 5 de abril de 2009

Beijo de uma Rosa

Kiss From a Rose (tradução)

"Costumava existir uma torre cinza sozinha no mar.
Você se tornou a luz no meu lado escuro.
O amor me lembrou uma droga, me eleva o bastante para curar

Mas você sabia, que quando neva os meus olhos se tornam maiores,
e a luz q vc emite pode ser vista...

Querida, Eu comparo você ao beijo de uma rosa na sepultura
Quanto mais eu tenho você...Mais estranho parece
E agora que a sua rosa desabrochou
A luz acerta a escuridão na sepultura

Existe tanta coisa que um homem pode dizer a você, tanto que ele pode dizer
Você me lembra, meu poder, meu prazer, minha dor...
Querida!!! Para mim você é como um velho vício que eu não posso negar...
Você não me dirá se isso eh saudavel, querida?

Mas você sabia, que quando neva os meus olhos se tornam maiores,
e a luz que voce emite pode ser vista...
Querida, Eu comparo você ao beijo de uma rosa na sepultura
Quanto mais eu tenho você...Mais estranho parece
E agora que a sua rosa desabrochou
A luz acerta a escuridão na sepultura

Eu tenho sido beijado por uma rosa sobre a sepultura.
Eu tenho sido beijado por uma rosa (na sepultura).
..(Eu deveria cair, deixar tudo isso ir embora)
Tenho sido beijado por uma rosa na sepultura.

Existe tanta coisa que um homem pode dizer a você, tanto que ele pode dizer
Você me lembra, Meu poder, meu prazer, minha dor.
Para mim você é como um velho vício que eu não posso negar...
Você não me dirá é isso eh saudavel, querida?

Mas você sabia, que quando neva, Meus olhos se tornam maiores e,
e a luz que voce emite pode ser vista...
QUerida, Eu comparo você ao beijo de uma rosa na sepultura
Tenho sido, beijado por uma rosa na sepultura.
Quanto mais eu tenho de você...
Mais estranho me sinto

Agora que sua rosa desabrochou.
A luz acerta a escuridão nas cinzas

Agora que sua rosa desabrochou.
A luz acerta a escuridão nas cinzas"



Katherine Jenkins

domingo, 29 de março de 2009

Domingo e nós

«"O que é que você vai fazer domingo à tarde?"
Por que é que você não vai sair comigo?
Vem passar a tarde comigo
vamos passear de mão dada,
os olhos enroscados nos olhos
e os lábios carentes de beijos
vão afogar-se em mil desejos
e a tarde será noite
e a noite será dia
e o dia será a vida
e sempre assim
mergulhados um no outro
seremos felizes...
beijos e beijos...
"beija-me, beija-me mil vezes..."
E sabes que a esta hora
e na hora anterior
e na posterior
eu penso em ti
e sempre.
"beija-me mil vezes, mil vezes mais..."»


Rouxinol (29.03.2009 - 18:02)

domingo, 22 de março de 2009

SE TU VIESSES VER-ME...

Se tu viesses ver-me hoje à tardinha,
A essa hora dos mágicos cansaços,
Quando a noite de manso se avizinha,
E me prendesses toda nos teus braços...

Quando me lembra: esse sabor que tinha
A tua boca... o eco dos teus passos...
O teu riso de fonte... os teus abraços...
Os teus beijos... a tua mão na minha...

Se tu viesses quando, linda e louca,
Traça as linhas dulcíssimas dum beijo
E é de seda vermelha e canta e ri

E é como um cravo ao sol a minha boca...
Quando os olhos se me cerram de desejo...
E os meus braços se estendem para ti...

Florbela Espanca in Sonetos
Livraria Tavares Martins

FANATISMO

Minh'alma, de sonhar-te, anda perdida
Meus olhos andam cegos de te ver!
Não és sequer razão do meu viver,
Pois que tu és já toda a minha vida!

Não vejo nada assim enlouquecida...
Passo no mundo, meu Amor, a ler
No misterioso livro do teu ser
A mesma história tantas vezes lida!

«Tudo no mundo é frágil, tudo passa...»
Quando me dizem isto, toda a graça
Duma boca divina fala em mim!

E, olhos postos em ti, digo de rastos:
«Ah! Podem voar mundos, morrer astros,
Que tu és como Deus: Princípio e Fim!...»

Florbela Espanca in Sonetos
Livraria Tavares Martins

FUMO

Longe de ti são ermos os caminhos
Longe de ti não há luar nem rosas,
Longe de ti há noites silenciosas,
Há dias sem calor, beirais sem ninhos!

Meus olhos são dois velhos pobrezinhos
Perdidos pelas noites invernosas...
Abertos, sonham mãos cariciosas,
Tuas mãos doces, plenas de carinhos

Os dias são Outonos: choram... choram...
Há crisântemos roxos que decoram...
Há murmúrios dolentes de segredos...

Invoco o nosso sonho! Estendo os braços!
E ele é, ó meu Amor, pelos espaços,
Fumo leve que foge entre meus dedos!...

Florbela Espanca in Sonetos
Livraria Tavares Martins

Tu és poesia

"Fui a Marte.
Depois parei na Lua
e ali fiquei a ver-te,
dentro do meu coração.
Depois perdi o avião
que me traria de regresso à terra.
Vim no seguinte
mas esse não era directo.
Passou primeiro por Vénus
e por isso demorou.
Agora vou preparar-me
para dizer-te poesia.
Tu és poesia..."


Rouxinol (21.03.2009 - 22:55)

terça-feira, 10 de março de 2009

Tu estás aqui

"Estás aqui comigo à sombra do sol
escrevo e oiço certos ruídos domésticos
e a luz chega-me humildemente pela janela
e dói-me um braço e sei que sou o pior aspecto do que sou
Estás aqui comigo e sou sumamente quotidiano
e tudo o que faço ou sinto como que me veste de um pijama
que uso para ser também isto este bicho
de hábitos manias segredos defeitos quase todos desfeitos
quando depois lá fora na vida profissional ou social só sou um nome e sabem
o que sei o
que faço ou então sou eu que julgo que o sabem
e sou amável selecciono cuidadosamente os gestos e escolho as palavras
e sei que afinal posso ser isso talvez porque aqui sentado dentro de casa sou
outra coisa
esta coisa que escreve e tem uma nódoa na camisa e só tem de exterior
a manifestação desta dor neste braço que afecta tudo o que faço
bem entendido o que faço com este braço
Estás aqui comigo e à volta são as paredes
e posso passar de sala para sala a pensar noutra coisa
e dizer aqui é a sala de estar aqui é o quarto aqui é a casa de banho
e no fundo escolher cada uma das divisões segundo o que tenho a fazer
Estás aqui comigo e sei que só sou este corpo castigado
passado nas pernas de sala em sala. Sou só estas salas estas paredes
esta profunda vergonha de o ser e não ser apenas a outra coisa
essa coisa que sou na estrada onde não estou à sombra do sol
Estás aqui e sinto-me absolutamente indefeso
diante dos dias. Que ninguém conheça este meu nome
este meu verdadeiro nome depois talvez encoberto noutro
nome embora no mesmo nome este nome
de terra de dor de paredes este nome doméstico
Afinal fui isto nada mais do que isto
as outras coisas que fiz fi-Ias para não ser isto ou dissimular isto
a que somente não chamo merda porque ao nascer me deram outro nome
que não merda
e em princípio o nome de cada coisa serve para distinguir uma coisa das
outras coisas
Estás aqui comigo e tenho pena acredita de ser só isto
pena até mesmo de dizer que sou só isto como se fosse também outra coisa
uma coisa para além disto que não isto
Estás aqui comigo deixa-te estar aqui comigo
é das tuas mãos que saem alguns destes ruídos domésticos
mas até nos teus gestos domésticos tu és mais que os teus gestos domésticos
tu és em cada gesto todos os teus gestos
e neste momento eu sei eu sinto ao certo o que significam certas palavras como
a palavra paz
Deixa-te estar aqui perdoa que o tempo te fique na face na forma de rugas
perdoa pagares tão alto preço por estar aqui
perdoa eu revelar que há muito pagas tão alto preço por estar aqui
prossegue nos gestos não pares procura permanecer sempre presente
deixa docemente desvanecerem-se um por um os dias
e eu saber que aqui estás de maneira a poder dizer
sou isto é certo mas sei que tu estás aqui"


Ruy Belo, Toda a Terra Todos os Poemas
Assírio & Alvim 2000

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Durmo ou não?


"Durmo ou não? Passam juntas em minha alma
Coisas da alma e da vida em confusão,
Nesta mistura atribulada e calma
Em que não sei se durmo ou não.

Sou dois seres e duas consciências
Como dois homens indo braço-dado.
Sonolento revolvo omnisciências,
Turbulentamente estagnado.

Mas, lento, vago, emerjo de meu dois.
Disperto. Enfim: sou um, na realidade.
Espreguiço-me. Estou bem... Porquê depois,
De quê, esta vaga saudade?"


Fernando Pessoa

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Roseline

"Moi, je sais ta chanson
Roseline.
Tu chantais, tu pleurais
Roseline
Et la mer écoutait
Sans rien dire
La chanson de ton coeur
Roseline.
Une larme, un baiser
Une larme
Sur le sable est tombée...
Une larme
Douce et pure
Et plus belle qu'une étoile,
Sur le sable est tombée
Une larme.

Chante encore,
Pleure encore,
Roseline
Que c'est bon,
Que c'est doux,
Roseline
De chanter et de pleurer
Quand on aime.
De chanter et de pleurer
Roseline.
De chanter et de pleurer
Roseline.
Roseline"


(Chanson de Marie Laforêt)

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Et Maintenant

"Et maintenant que vais-je faire
De tout ce temps que sera ma vie
De tous ces gens qui m'indiffèrent
Maintenant que tu es partie

Toutes ces nuits, pourquoi pour qui
Et ce matin qui revient pour rien
Ce cœur qui bat, pour qui, pourquoi
Qui bat trop fort, trop fort

Et maintenant que vais-je faire
Vers quel néant glissera ma vie
Tu m'as laissé la terre entière
Mais la terre sans toi c'est petit

Vous, mes amis, soyez gentils
Vous savez bien que l'on n'y peut rien
Même Paris Paris Paris crève d'ennui
Toutes ses rues me tuent

Et maintenant que vais-je faire
Je vais en rire pour ne plus pleurer
Je vais brûler des nuits entières
Au matin je te haïrai

Et puis un soir dans mon miroir
Je verrai bien la fin du chemin
Pas une fleur et pas de pleurs
Au moment de l'adieu

Je n'ai vraiment plus rien à faire
Je n'ai vraiment plus rien
Je n'ai vraiment plus rien à faire
Je n'ai vraiment plus rien
Rien
Rien"


cantada por Grégory Lemarchal

PÁLIDA E LOIRA

Morreu. Deitada no seu caixão estreito,
Pálida e loira, muito loira e fria,
O seu lábio tristíssimo sorria
Como num sonho virginal desfeito.

Lírio que murcha ao despontar do dia,
Foi descansar no derradeiro leito,
As mãos de neve erguidas sobre o peito,
Pálida e loira, muito loira e fria...

Tinha a cor da rainha das baladas
E das monjas antigas maceradas,
No pequenino esquife em que dormia...

Levou-a a Morte em sua garra adunca!
E eu nunca mais pude esquecê-la, nunca!
Pálida e loira, muito loira e fria...

António Feijó - Poesias Completas
Edições Caixotim

Pedra Filosofal (Versão 2)



Manuel Freire

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

AS PÉROLAS

Abraçadas aos rochedos
Entre as algas e os corais,
Ouvindo estranhos segredos
No coro dos vendavais,

Nas grandes conchas prateadas
Vão-se as pérolas coalhar,
Como as lágrimas choradas
Pela Aurora, sobre o Mar...

***

Assim no mar do meu peito
Que imensa angústia devora,
Se acaso aparece a aurora
Do teu olhar satisfeito,

Esse límpido fulgor
Faz coalhar no coração
Com as lágrimas do Amor
As pérolas da Paixão!...


António Feijó (O poeta que morreu de amor) - Poesias Completas
Edições Caixotim

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Confiança

"O que é bonito neste mundo, e anima,
É ver que na vindima
De cada sonho
Fica a cepa a sonhar outra aventura...
E que a doçura
Que se não prova
Se transfigura
Numa doçura
Muito mais pura
E muito mais nova..."


Miguel Torga
Retirado de: http://eternapoesia.blogspot.com

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

CONQUISTA

Livre não sou, que nem a própria vida
Mo consente.
Mas a minha aguerrida
Teimosia
É quebrar dia a dia
Um grilhão da corrente.

Livre não sou, mas quero a liberdade.
Trago-a dentro de mim como um destino.
E vão lá desdizer o sonho do menino
Que se afogou, e flutua
Entre nenúfares de serenidade
Depois de ter a lua!

Miguel Torga - Cântico do Homem
Coimbra

PRISÃO

Canta dentro de mim a confiança
Da grande multidão silenciosa
Que me rodeia.
Move-se uma epopeia
Na rasa solidão do meu destino.
Como um búzio anodino
Que na praia ressoa
A pancada da onda que magoa
As penedias,
Assim eu tenho melodias
Emparedadas
No coração.
Pudesse a concha, como um fruto cheio
De fecundas doçuras desejadas,
Abrir-se no areal de meio a meio
E libertar as notas abafadas!

Miguel Torga - Cântico do Homem
Coimbra

domingo, 15 de fevereiro de 2009

Arma secreta

"Tenho uma arma secreta
ao serviço das nações.
Não tem carga nem espoleta
mas dispara em linha recta
mais longe que os foguetões.

Não é Júpiter, nem Thor,
nem Snark ou outros que tais.
É coisa muito melhor
que todo o vasto teor
dos Cabos Canaverais.

A potência destinada
às rotações da turbina
não vem da nafta queimada,
nem é de água oxigenada
nem de ergóis de furalina.

Erecta, na noite erguida,
em alerta permanente,
espera o sinal da partida.
Podia chamar-se VIDA.
Chama-se AMOR, simplesmente."


António Gedeão, Poesias Completas (1956-1967),
Lisboa, Portugália Editora, 1975, 5.ª ed.


Retirado de: http://pracadapoesia.blogspot.com

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Vida tão estranha

"São de veludo as palavras
Daquele que finge que ama
Ao desengano levo a vida
A sorte a mim já não me chama

Vida tão só
Vida tão estranha
Meu coração tão mal tratado
Já nem chorar me traz consolo
Resta-me só o triste fado

A gente vive na mentira
Já nem dá conta do que sente
Antes sozinha toda a vida
Que ter um coração que mente"


Rodrigo Leão

sábado, 7 de fevereiro de 2009

Urgência de ser

Urgência de ser,
num desejo infinito,
num querer sem limites...
Vazios contíguos
de espaços, sem memória,
sem compassos de espera,
desespero, escapatória...
Suporte de essência
em viela simplória
de nostálgia, estória,
numa presença ausente,
de indefinível esperança,
de incansável persistência...

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Ah, um Soneto...

"Meu coração é um almirante louco
que abandonou a profissão do mar
e que a vai relembrando pouco a pouco
em casa a passear, a passear...

No movimento (eu mesmo me desloco
nesta cadeira, só de o imaginar)
o mar abandonado fica em foco
nos músculos cansados de parar.

Há saudades nas pernas e nos braços.
Há saudades no cérebro por fora.
Há grandes raivas feitas de cansaços.

Mas — esta é boa! — era do coração
que eu falava... e onde diabo estou eu agora
com almirante em vez de sensação? ..."


Álvaro de Campos, in "Poemas
"
Heterónimo de Fernando Pessoa

sábado, 31 de janeiro de 2009

Saudade

"Saudade é solidão acompanhada,
é quando o amor ainda não foi embora,
mas o amado já…

Saudade é amar um passado que ainda não passou,
é recusar um presente que nos machuca,
é não ver o futuro que nos convida…

Saudade é sentir que existe o que não existe mais…

Saudade é o inferno dos que perderam,
é a dor dos que ficaram para trás,
é o gosto de morte na boca dos que continuam…

Só uma pessoa no mundo deseja sentir saudade:
aquela que nunca amou.

E esse é o maior dos sofrimentos:
não ter por quem sentir saudades,
passar pela vida e não viver.

O maior dos sofrimentos é nunca ter sofrido."


Pablo Neruda

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Tempo oco

"Talvez amanhã a musa baloice nos diários
de bordo
e as águas embarquem na paisagem
das sílabas à vista.
Hoje foi um dia perverso: um abismo
de contratos falseados
como se a lei caísse na hora cega
de todos os compêndios.
Apetece morrer. Apetece rasgar
este evangelho segundo o tempo oco
e explodir no epicentro dos teus lábios
quentes... quentes... quentes...
incendiário timoneiro do sangue louco."


Alice Fergo, in Versos de Água,
Universitária Poesia

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Soneto de Fidelidade

"De tudo ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure."



Vinicius de Moraes, "Antologia Poética",
Editora do Autor, Rio de Janeiro, 1960
.

sábado, 10 de janeiro de 2009

No Coração, Talvez

"No coração, talvez, ou diga antes:
Uma ferida rasgada de navalha,
Por onde vai a vida, tão mal gasta.
Na total consciência nos retalha.
O desejar, o querer, o não bastar,
Enganada procura da razão
Que o acaso de sermos justifique,
Eis o que dói, talvez no coração."


José Saramago, in Os Poemas Possíveis

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

IDEAL

Onde moras? Onde moras?

Se adivinhasse onde moras,
- Em frente da tua porta,
Olhando a tua janela,
Veria passar as horas,
As minhas últimas horas.
Sem ti, a vida que importa?
A Vida, nem penso nela...
Veria passar as horas
As minhas últimas horas,
Em frente da tua porta,
Olhando a tua janela...

Onde moras? Onde moras?

É num castelo roqueiro?
Se é num castelo roqueiro,
Erguido na penedia,
Sobre o rochedo mais alto
À beira-mar sobranceiro,
Com a minha fantasia
Irei tomá-lo de assalto,
Esse castelo roqueiro
Erguido na penedia,
Sobre o rochedo mais alto,
À beira-mar sobranceiro...

Onde moras? Onde moras?

É nos abismos do mar?
Se é nos abismos do mar,
Sobre a múrmura corrente,
No teu leito de amaranto
Irei também descansar,
Ficando perpetuamente
Naquele perpétuo encanto
Do Rei Harald Horfagar...
No teu leito de amaranto
Irei também descansar,
Ficando perpetuamente
Naquele perpétuo encanto
Do Rei Harald Horfagar.

Onde moras? Onde moras?

É numa estrela, ilha de ouro?
Se é numa estrela, ilha de ouro,
- A vida-Láctea é uma ponte,
Subirei por ela ao céu...
Para alcançar o meu tesouro
Não há remoto horizonte,
Nem Sagitário ou Perseu...

Onde moras? Onde moras?

Se adivinhasse onde moras,
- Em frente da tua porta,
Olhando a tua janela,
Veria passar as horas,
Sem ti, a vida que importa?
A Vida, nem penso nela...
Veria passar as horas,
As minhas últimas horas,
Em frente da tua porta,
Olhando a tua janela,
Numa extasiada emoção.

Dize-me, pois, onde moras,
Se porventura não moras
Dentro do meu coração...

António Feijó - "O poeta que morreu de amor..."

OS OLHOS

Ó olhos, de onde Amor suas flechas
contra mim, cuja luz me espanta e cega,
ó olhos, onde Amor se esconde, e prega
as almas, e pregando-as, se retira!

Ó olhos, onde Amor amor inspira
e amor promete a todos e amor nega,
ó olhos onde Amor também se emprega
por quem tão bem se chora, e se suspira!

Ó olhos, cujo fogo a neve fria
acende, e queima; ó olhos poderosos
de dar à noite, luz, e vida à morte;

Olhos por quem mais claro nasce o dia,
por quem são os meus olhos tão ditosos,
que de chorar por vós me coube a sorte!

António Ferreira
séc. XVI

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Não posso adiar o amor

"Não posso adiar o amor para outro século
não posso
ainda que o grito sufoque na garganta
ainda que o ódio estale e crepite e arda
sob as montanhas cinzentas
e montanhas cinzentas

Não posso adiar este braço
que é uma arma de dois gumes amor e ódio

Não posso adiar
ainda que a noite pese séculos sobre as costas
e a aurora indecisa demore
não posso adiar para outro século a minha vida
nem o meu amor
nem o meu grito de libertação

Não posso adiar o coração."


António Ramos Rosa

domingo, 4 de janeiro de 2009

O amor que sinto

"O amor que sinto
é um labirinto.

Nele me perdi
com o coração
cheio de ter fome
do mundo e de ti
(sabes o teu nome),
sombra necessária
de um Sol que não vejo,
onde cabe o pária,
a Revolução
e a Reforma Agrária
sonho do Alentejo.
Só assim me pinto
neste Amor que sinto.

Amor que me fere,
chame-se mulher,
onda de veludo,
pátria mal-amada,
chame-se "amar nada"
chame-se "amar tudo".

E porque não minto
sou um labirinto."


José Gomes Ferreira

sábado, 3 de janeiro de 2009

Chove!

"Chove...

Mas isso que importa!
se estou aqui abrigado nesta porta
a ouvir a chuva que cai do céu
uma melodia de silêncio
que ninguém mais ouve
senão eu?

Chove...

Mas é do destino
de quem ama
ouvir um violino
até na lama."


José Gomes Ferreira

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

Cantar

"Cantar de beira de rio:
Agua que bate na pedra,
pedra que não dá resposta.

Noite que vem por acaso,
trazendo nos lábios negros
o sonho de que se gosta.

Pensando no caminho
pensando o rosto da flor
que pode vir, mas não vem

Passam luas - muito longe,
estrelas - muito impossíveis,
nuvens sem nada, também.

Cantar de beira de rio:
o mundo coube nos olhos,
todo cheio, mas vazio.

A água subiu pelo campo,
mas o campo era tão triste...
Ai!
Cantar de beira de rio."


Cecília Meireles